13 de setembro de 2011

Identidade que divaga: Olhares do sujeito Cidade-Campo

Entre os atos, fatos ditos nas minhas telas,
algo subsiste por um contínuo que transpassa...
os próprios atos, os próprios fatos.
Mas de outra camada, de outra tessitura.


Ditam palavras: escritas faladas. Falácias.
Fazem piadas: frias, insensatas.


Nem uns, nem outras, boca calada.
Todo dia na rima enxada-madrugada.


Subsiste. Persiste. Sob vã monotonia,
beijo-linha-de-montagem.
Refaz-se sobre ele, um amor-densidade,
acontecência poética
um tanto mais lúcida, desperta.


Trigo de pão, futuro na mão,
lâmina que ceifa sob a face do chão
toda fome de sim, fazendo húmus do não:
não-emoção, não-brincadeira, não-violão,
não-coragem, não-participação, não-inexato,
não-mistura, não-história,
não-coração.


História da terra-nós-eu, galhinho nascido
da aurora dos tempos, do tempo em que
não havia invenção do tempo,
berço das folhas tenras e
da incipiente consciência.


Com ciência de que?

13 de dezembro de 2010

Learning Process (speak and fly)

My ability to love
is like my desire
to speak in english

In my head, fluency,
and I talk so easily
I would dive, deeply
(as a dolphin dove up
emerging to the sky),
in each letter of my heart.

Nonetheless,
in my mouth
the book remains on the table.

But I know the law...

and as much as I try
my existence gets so high

To keep misunderstanding
away from us, I will spell,
fast as I can
(slowly as I am)
and clearly as possible,
all the words in my mind:

Love is a cosmic magical key.
Love is the answer
I will combine
your soul and mine

4 de outubro de 2010

(des)governo

Vozes de mim ressoam...
vastos painéis me dizem quem sou?
painéis, vozes... palavras
informações de outros eus
eu-anímico,
eus maníacos
de outros tempos:
maníaco depressivo
maníaco mental
maníaco sexual
maníaco verbal
mania de ego
mania de esquecer de
saber quem sou.

mania assim sem voz
sem palavras
sem painel
sem cartaz
nem autidor

só silêncio.

mas sei que nem mil minutos televisivos
seriam capazes de expôr o que sou.
E eu, candidato imaturo,
que já ocupo cargos
incultos,
me governo para o que?

26 de julho de 2010

Presto Sim

Sim, presto sim.
presto continência
a todos os emblemas.
ditos cujos, vossas execelências...

ah, duvide disso não
que pois inté mesmo
quem acha que não, já viu
de perto um corpo maior
e sem pestanejar,
num raio de segundo,
arvorou costume novo...
Rá, de imediato!

14 de março de 2010

Dias de Vento

Tem dias que,
mesmo sem querer,
damos passagem
ao vento amigo que,
suave, carrega pra
longe de nós angústias,
inseguranças e até
mesmo os menores
e propositadamente
escondidos - e por
isso deveras nocivo,
medinhos da vida.

E leves, respiramos o ar
envolto que nos graça...

Como a brisa da noite
que penera a areia fina
da praia, nos refazemos
de novos pensamentos
(aqueles que não tem peso)
perdoados pela convicção,
que nos é muito própria,
da necessidade
daquelas transformações
que cotidianamente
solicitam-nos atenção.

4 de março de 2010

Viagens de Sertão

Hoje desembocou um bocado de memórias do sertão, que falando-me desde setembro passado, só encontrei jeito de dizê-las agorinha há pouco....

Naquela manhã
foi-se o vento da discórdia
que sempre passava
assustando o vilarejo.

Naquela manhã,
foi-se o tempo de cólera
que há muito não o abandonava

Naquele dia,
viu-se uma margarida
em festa clara, pelo vale todo
E ele, enluarado fazia-se pasto...
não de capim, nem de arado,
mas de uma fome sertaneja
que encobria-nos até as cabeças
não saciava-se de pão e nem de girimum,
nem virando a panela ao avesso

Essa fome era das noites do sertão
do banquinho da fogueira,
da brasa de um coração
de uma festa mateira
que corria solta, sem estribeira
no cancioneiro do peito
da viola de um violeiro.

Por essas casas marcam-se histórias,
delas todas, dores, tristezas e festejos
que não se desbotam - como o pasto,
que mesmo marcado, judiado de seca,
não se ressente da estiagem nem
da quentura dos longos dias
e rebrotava firme e vigoroso
assim que no céu a nuvem surgia

Não há jeito de se esquecer,
marca de memória tem registro forte,
profunda na gente a maneira de ser
tantas vezes mais doído que
gado marcado, ferrado a fogo.

O fogo das lembranças, é que
ela queima e arde, talhando
na alma as coisas muito nossas,
lambendo tudo e fagulhando desde
dentro pelo miolo do íntimo,
sem nem mesmo a gente se aperceber..

Mas basta a sobriedade da coragem
de tudo isso querer ver, re-esculpir
pra fazer do fogo das lembranças
formão de aparador, desbastando e
desvelando tudo aquilo que o sonho da noite,
claro como a luz do dia,
há tempos já nos indicou.


slide antigo do padrinho fernando, retrato de uma viagem do passado

22 de dezembro de 2009

Minha mãe a sonhar*

Tive um sonho. Estava numa colina, na qual via meus filhos, meus netos, meus pais, sogros. Então, também me via junto com meu companheiro. Na tranquilidade de minha maturidade via meus netos correndo, felizes, saudáveis. Pequenos instrumentos musicais compunham o cenário. Cantores mirins formavam um coral. Mais além, pequenas enxadas e ancinhos trabalhavam num pomar, outros num jardim. Toda esta paisagem formava um lindo arco-íris formado por todas as raças. E parecia um sonho dentro do meu sonho. O som da música, das pás, do serrote numa mini marcenaria formavam uma orquestra que tinha o amor como compasso principal, a solidariedade como tom maior, a igualdade como clave universal.

Virei-me bem devagar junto com meu companheiro e vimos os nossos e outros filhos com os olhos fixos nos seus e nos filhos de todos. Estavam felizes! Realizados emocional e profissionalmente. Lutavam por ser ainda melhores, mas não tinham a preocupação do desemprego, da fome, da miséria da ausência do lazer. O trabalho manual e intelectual se complementavam. Eram cidadãos de um país fantástico.

Então nossos olhos procuraram a sabedoria e encontramos os nossos e todos os mais velhos que nós. As lágrimas caíam mas nossos lábios sorriam. Víamos nosso futuro não tão distante e já não tínhamos medo!

Ao som do forró, da valsa, do bolero e do rock, casais se juntavam e, ritmados, aquela massa humana formou um corpo de baile belíssimo.

Subimos num pequeno morro. Nossas vistas alcançaram longe. Como num oceano, cabeleiras brancas, outras pintadas, imitavam as ondas no vai e vem do mar.

Fixamos nossa visão nos rostos. O tempo deixou-os com rugas, afora algumas plásticas. Eram as rugas da história de vida de cada um. Elas resumiram o conhecimento, a experiência, as dores e as alegrias do passado de cada um. Mas era a vida em sua plenitude. Viúvos e viúvas reencontrando o amor e carinho. Casais antigos revendo o passado, o momento atual de suas vidas e vendo a continuidade do futuro nas crianças.

Não havia angústia, medo ou solidão.
Não havia discriminação e isolamento
Havia consideração, respeito e muito amor.


*Escrito por Inês Albuquerque Pupo